
Em As Intermitências da Morte, José Saramago mergulha o leitor em um universo onde a morte, essa inevitável companheira da vida, decide fazer uma pausa. Em um mundo perplexo, pessoas que antes esperavam a morte como um descanso acabaram se deparando com a eternidade, e a vida prossegue como um ciclo interminável de expectativas frustradas. Saramago transforma um tema muitas vezes tratado como tabu em uma reflexão profunda e inquietante sobre o que significa viver e morrer.
A narrativa flui de maneira quase hipnótica. As palavras do autor têm a capacidade de arrastar você para um abismo de questionamentos sobre a condição humana. Com sua prosa singular, Saramago brinca com a lógica e a lógica do absurdo, levando-nos a refletir sobre o valor do tempo e as relações humanas em um cenário surreal. Como você se sentiria ao ter a morte como uma opção a se descartar semanas seguidas? Isso provoca um desejo insaciável de entender o que se esconde atrás dessa linha tênue entre a vida e a morte.
Os leitores são apresentados a uma sociedade que, inicialmente encantada pela proposta da imortalidade, percebe rapidamente que a falta de morte impacta todos os aspectos da vida. Casais permanecem separados pelo peso da vida eterna, conflitos não resolvidos se arrastam e o significado da existência é constantemente desafiado. Essa narrativa imersiva não só provoca um riso nervoso, mas também um questionamento doloroso: e se a morte não fosse uma certeza, mas uma intermitência? O que isso diria sobre nós?
Comentários dos leitores não faltam em suas controvérsias, e muitos foram atraídos pela crítica incisiva à sociedade e suas convenções. Alguns acham que Saramago é um legítimo filósofo disfarçado de romancista, enquanto outros o acusam de um ritmo maçante que exige paciência e atenção. Mas, ah, como vale a pena! Aqueles que conseguem se permitir essa jornada densa são recompensados com um entendimento mais profundo sobre a fragilidade da vida e a necessidade da morte para dar sentido a tudo.
A capacidade de Saramago de conectar sua narrativa à cultura e à política é admirável. Ele nos lembra que o abismo entre a vida e a morte é permeado por uma série de questões sociais, como a iniquidade e o desespero humano. Por trás da comédia, há uma crítica à forma como a sociedade lida com o sofrimento e a finitude. Em tempos em que a efemeridade é constantemente negada, As Intermitências da Morte se apresenta como um grito urgente para que abracemos nosso destino com todas as suas nuances.
Assim, ao final dessa leitura, você se verá questionando não apenas as intermitências da morte, mas também as intermitências da vida - aquelas que ficam à espera de uma decisão, uma ação, um amor. Seria essa obra uma forma de Saramago nos formar como humanos? Não consigo evitar essa reflexão, pois, como disse o próprio autor, "a única coisa que ainda nos resta é viver". E assim, entre risos e lágrimas, entre o cômico e o trágico, você se verá seduzido por um conhecimento inquietante que ecoará muito além da última página.
📖 As Intermitências da Morte
✍ by José Saramago
🧾 208 páginas
2005
#intermitencias #morte #jose #saramago #JoseSaramago