Em "O jornalista e o assassino: Uma questão de ética", Janet Malcolm se mete no meio de uma verdadeira novela de mistério e questões morais que, se não fosse tão sério, poderia facilmente ser adaptado para uma série de TV onde o drama e o humor se encontram na sala de redação. A obra discorre sobre a relação intrincada entre a ética do jornalismo e a narrativa do crime, em um verdadeiro tango onde os jornalistas dançam com suas intenções e os assassinos, bom, digamos apenas que eles têm suas próprias "pistas" a seguir.
A história gira em torno do caso de Jeffrey MacDonald, um médico acusado do assassinato da esposa e dos filhos. O que poderia parecer apenas mais um escândalo midiático na televisão se transforma em uma análise profunda do papel do jornalista, especialmente da própria autora, que se lança na tarefa de investigar a vida de MacDonald e, claro, de registrar sua história. Malcom nos apresenta a ideia de que, no fundo, qualquer jornalista é um predador disfarçado de amigo, se aproveitando da fragilidade de seu entrevistado.
E diz-se que o jornalista é, essencialmente, um artista. Afinal, a vida não é uma grande peça de teatro? Mas aqui a pergunta é: até onde vai a ética nessa encenação? Malcolm abandona a ideia de manter uma certa distância da narrativa e se aprofunda no abismo moral que reside dentro de quem conta histórias. Em outras palavras, ela não está aqui para nos trazer apenas a verdade, mas a interpretação dela, conforme seu próprio olhar perspicaz. Este é o ponto crucial que ela deseja explorar.
Na trama, os dilemas éticos ganham corpo, fazendo o leitor se perguntar: "Eh, mas será que eu poderia entrevistar um assassino e ainda assim dormir tranquilo à noite?" Através de entrevistas e investigações, a autora traz à tona as vozes de MacDonald, dos jornalistas, e ainda faz um belo desfile de manipulações e contradições. Tudo isso enquanto se pergunta: até que ponto a busca pela verdade pode ser justificada?
Esse jogo, aliás, parece ser o verdadeiro protagonista da obra. Com um tom provocador e irônico, Malcolm expande a discussão para além de um simples relato do caso, levando-nos a refletir sobre como a narrativa jornalística molda a percepção pública e, por assim dizer, as "verdades" que aceitamos como absolutas. E aqui vai um spoiler, se é que isso pode ser considerado um: a ética no jornalismo é um campo minado, e muitas vezes, tanto o jornalista quanto o entrevistado, são meros fantoches em uma peça em que a audiência (nós) aprecia o espetáculo.
Se você está à procura de um livro que trate de questões sobre a moralidade, a ética profissional e a linha tênue entre a verdade e a ficção (com um lado sombrio e engraçado), prepare-se para desbravar este labirinto com Janet Malcolm. Prepare-se para rir, chorar e, quem sabe, refletir sobre o que realmente constitui uma narrativa. Afinal, o que é a verdade, além de uma versão bem contada?