Se você pensou que "Os Exércitos" de Evelio Rosero era só mais um livro sobre estratégia militar, se prepare para uma verdadeira viagem literária por um mundo onde a guerra não é apenas um campo de batalha, mas um estado de espírito. Sente-se confortavelmente, porque essa obra te levará a refletir sobre a violência, o medo e as consequências da guerra na vida civil.
A história se passa em um pequeno vilarejo na Colômbia, que, assim como a maioria dos lugares por lá, está em um estado de "cuidado com a palavra que você usa". O protagonista, Umberto, é um velho que, a essa altura, deve mais dinheiro a médicos do que suas posses podem pagar. E isso, meus amigos, só para ilustrar como a vida pode ser irônica. Enquanto ele tenta viver sua rotina tranquila e se lembrar dos bons tempos, os ambientes e pessoas ao seu redor vão sendo desfigurados pela guerra que não para.
Os anos se acumulam e a vida acaba virando um grande jogo de esconde-esconde; e, spoiler alert, a guerra sempre se esconde atrás do próximo canto. Umberto caminha entre um passado que já não tem volta e um presente que definitivamente não parece com o que ele esperava. Crianças se tornam soldados, vizinhos se tornam inimigos e a paz... bem, essa parece que decidiu ir de férias.
Rosero utiliza uma prosa rica e poética para capturar a essência do sofrimento humano em tempos de conflito. Ah, e para não esquecer a pitada de originalidade, as reflexões do protagonista permeiam todo o enredo, mostrando como a vida continua mesmo quando tudo ao redor desmorona. Grande parte do ritmo do livro é marcada pela repetição do cotidiano, que contrasta com a brutalidade que a guerra traz de forma abrupta.
Outro ponto que Rosero explora é a memória: o que é lembrado, o que permanece e o que é apagado. Os exércitos, embora mais que figurativos na história, ocupam a mente de Umberto constantemente, como um incômodo ponto de vista que ele não consegue ignorar. O autor é magistral em mostrar como o trauma da guerra se infiltra na vida cotidiana, fazendo com que a memória deixe de ser um refúgio e comece a se tornar uma prisão.
E então temos o desfecho: Umberto percebe que a guerra não é apenas o campo de batalha, mas uma linha invisível que permeia todas as relações humanas. Merece a atenção especial como Rosero conduz isso sem fazer com que o leitor se sinta aquado. Um convite à reflexão, mas sem perder a leveza que o torna acessível.
Spoilers? Bom, o livro não é exatamente um thriller de ação que irá te deixar no suspense, mas a realidade é que a guerra está sempre prestes a explodir. Portanto, prepare-se para um final que é mais uma chamada à ação do que uma solução.
No geral, "Os Exércitos" é uma obra poderosa que, através de Umberto, expõe as feridas da guerra. Se você quer um clássico que te faça questionar tudo e mais um pouco sobre o que a vida moderna tenta esquecer, essa leitura é o caminho certo. E lembre-se: em tempos de guerra, a palavra se torna tanto um armamento quanto uma denúncia. Então, trate de agarrar essa conclusão, porque ela pode muito bem ser a sua salva-vida em mares tempestuosos de reflexões.