Se você está a fim de uma deliciosa road trip literária com um toque de filosofia e uma pitada de desencanto, "Viajando com Charley" é a aventura que você não sabia que precisava. Nesta obra, John Steinbeck decide pegar sua velha caminhonete, a Rocinante (isso mesmo, ele se inspirou no domador de ventos do "Dom Quixote"), e sair em uma jornada pelos Estados Unidos, não para fazer turismo, mas para redescobrir sua terra natal. E quem o acompanha? Seu fiel companheiro de quatro patas, Charley, um... adivinha? cachorro!
No início do livro, Steinbeck, um tanto quanto nostálgico, nos apresenta sua intenção de entender o povo americano e, claro, respirar o ar fresco da liberdade (que é bem mais agradável que o do escritório). E ele parte para isso com um roteiro bem vagamente definido, porque o autor sabe bem que a vida não é um GPS. Entre paradas e perrengues, somos apresentados a várias pessoas e cenários dignos de nossa boa e velha sitcom americana.
Spoiler: as coisas não saem exatamente como o planejado. Steinbeck descobre que, enquanto o continente é vasto e variado, o cenário político e social da época estava em frangalhos, a exemplo de uma boa pizza depois de uma noite de festa. A obra é permeada por suas observações sobre a cultura, a esquisitice humana e, é claro, as discussões intermináveis sobre o que significa ser americano, que podem ser mais complicadas que entender as regras do futebol americano.
Ao longo do caminho, Charley se revela mais do que apenas um companheiro peludo. Ele é o verdadeiro "conpreendedor" da jornada, sempre pronto para um passeio, um "au au" expressivo e, quem sabe, até algumas reflexões caninas sobre a vida. Steinbeck faz questão de nos lembrar que os cães são os melhores ouvintes - e Charley é, sem dúvida, o mais leal curioso do rolê.
O autor enfrenta aspectos mais sombrios da sociedade, como o preconceito e a desigualdade. Ele visita cidades que o surpreendem e o decepcionam, como um ex-namorado que você encontra anos depois e percebe que não era tudo isso que você imaginava. Cada parada é uma nova lição sobre a complexidade e a beleza do ser humano.
A obra não tem uma experiência de leitura linear; é um quebra-cabeça de sentimentos, viagens e descobertas. Steinbeck recicla memórias e reflexões como um artista que rearranjo suas tintas para criar uma nova obra-prima. Em meio a risadas e um ou outro suspiro profundo, somos convidados a entender que a vida é uma jornada - e, muitas vezes, a companhia mais valiosa não é a do título, mas sim aquela que está ao seu lado, mesmo que seja um cachorro.
Em suma, "Viajando com Charley" é um "road trip" que, ao mesmo tempo, é um espelho da alma humana e uma crítica mordaz à sociedade. Steinbeck nos mostra que as estradas podem ser sinuosas e cheias de buracos, mas também podem nos brindar com insights preciosos sobre quem somos e para onde vamos. Afinal, quem diria que um cachorro poderia nos ensinar tanto sobre a vida?
Agora, se você estava esperando um desfecho que amarre todas as pontas, sinto muito, mas essa não é a pegada de Steinbeck. Ele nos deixa na estrada, com um sorriso no rosto e um Charley ao nosso lado.