Se você estava pensando que "Os Nuer" seria uma novela romântica digna de um filme da Sessão da Tarde, sinto muito em te desapontar! Este livro é uma obra antropológica que leva o leitor a um tour pelas excentricidades e tradições do povo Nuer, que vive nas regiões pantanosas do Sudão do Sul. Então, prepare-se para um mergulho profundo, sem boias infláveis, nas tradições, rituais e, claro, nas tretas sociais desta tribo fascinante.
O autor, E. E. Evans Pritchard, não foi ao Sudão do Sul só para tirar selfies e aproveitar um belo pôr do sol. Ele mergulhou de cabeça nas práticas culturais dos Nuer, e isso significa que o homem fez trabalho de campo e investigou a fundo. Com isso, ele apresenta ao leitor como esse povo vive, se organiza e se relaciona. De posse de uma caneta e uma enorme curiosidade, Pritchard revela os segredos desses pastores de gado, que parecem ter mais intriga do que qualquer novela das nove.
Dentre os muitos highlight da obra, temos a questão do gado, que para os Nuer é como se fosse a moeda de troca, status social e, por que não, o equivalente a um carro do ano nas comunidades urbanas. Se um Nuer não tem gado, ele pode esquecer o tão sonhado matrimônio. A moral da história? Gado é tudo! Em um estudo de contrastes, o autor discute a peculiaridade das relações de parentesco e como o sistema de clãs molda a vida desses indivíduos.
Além disso, as crenças religiosas e os rituais de iniciação são uma festa à parte. Os Nuer têm uma rica mitologia que faz qualquer enredo de Hollywood parecer uma historinha sem graça. Eles acreditam em espíritos que habitam a natureza e realizam rituais que podem incluir danças, cânticos e muito mais. O autor nos presenteia com descrições de atividades que, se você assistir a um documentário sobre, vai querer se inscrever para um intercâmbio.
E, para quem estava curioso, sim, existem disputas e rivalidades, e Pritchard não deixa nada de fora! Os conflitos entre famílias e clãs podem fazer parecer que estamos em um reality show, com muita fofoca e picuinhas que duram gerações.
Mas, spoiler alert: não espere um final feliz ou uma serenata. O que temos aqui é a vida crua e nua (na verdade, eles têm a cultura de andar bem vestidos, mas você entendeu a ideia) dos Nuer, que, como bem se sabe, não termina em "e viveram felizes para sempre". A realidade é bem mais complexa e cheia de nuances.
Portanto, se você quer saber como um povo vive em harmonia (ou não) com a natureza e entre si, Os Nuer é um excelente ponto de partida. É um convite para abrir a mente e enxergar a diversidade da experiência humana. E de quebra, você vai sair daqui sabendo mais sobre a cultura da tribo do que a maioria dos formadores de opinião que arriscam suas opiniões em redes sociais!