
Há romances que pedem distância; Folhas de Bordo faz o contrário: aproxima o rosto, acende o perfume das flores, põe a neve sob os seus sapatos e deixa Brasília pulsar ao fundo. Marília Mangueira constrói uma história de amor, fé e recomeços em que Canadá e Brasil não são cartões-postais: são estados da alma. 🍁
A trama acompanha personagens atravessados por desejo, memória, tradições familiares e feridas que não desaparecem só porque alguém decidiu sorrir. Christopher e Carolina habitam uma narrativa em que encontros afetivos vêm sempre com bagagem: culpas, crenças, perdas antigas, sonhos teimosos e a pergunta que ninguém consegue calar quando a vida aperta - o que ainda nos sustenta?
A resposta do livro está no seu símbolo central. O bordo, árvore que empresta nome à obra, não aparece como enfeite importado. Ele organiza a imaginação do romance. Folhas caem, as estações mudam, o frio impõe silêncio; ainda assim, há raízes. E raízes são a parte menos fotogênica da existência - ninguém posta uma foto delas, ninguém aplaude seu trabalho subterrâneo -, mas é delas que vem a força para não tombar.
Marília aposta alto na emoção. Sua prosa é visual, carregada de perfume, roupa, música, comida, chuva, cavalos e olhos que parecem anunciar tempestades antes de qualquer diálogo. A narrativa avança em cenas curtas, quase como uma novela romântica filmada entre haras, hotéis, igrejas, sinagogas e estradas. Há ali uma vontade assumida de fazer você ver a cena antes de julgá-la.
Esse é também o ponto que pode dividir os leitores. Quem procura contenção, frases secas e personagens blindados contra o melodrama talvez estranhe a abundância de adjetivos, declarações e imagens intensas. Mas o livro não nasceu para pedir desculpas por sentir demais. Ele prefere o coração na mesa ao sarcasmo de quem finge que nada importa. Em tempos de cinismo de prateleira, essa escolha tem sua coragem.
O romance também cruza referências cristãs e judaicas sem tratar a espiritualidade como peça decorativa. Sermões, orações, festas, leituras bíblicas e rituais surgem como linguagem viva de personagens que tentam dar ordem ao caos. A fé, aqui, não apaga o sofrimento com uma frase de almofada; ela convive com a dúvida, a saudade e a sensação brutal de que o mundo, às vezes, simplesmente perdeu o eixo.
Esse eixo histórico aparece quando a narrativa alcança os primeiros tempos da pandemia. A experiência coletiva da Covid-19 entra no livro sem precisar monopolizar tudo: basta o seu peso conhecido, essa sombra que mudou rotinas, medos e despedidas no planeta inteiro. De repente, o romance íntimo ganha uma rachadura maior. Não é só uma família tentando sobreviver ao próprio passado; é uma geração encarando a fragilidade da vida sem roteiro de emergência.
Os cavalos, por sua vez, dão ao livro uma pulsação especial. Não estão ali apenas para ornamentar a paisagem rural ou emprestar charme a uma cena. Eles cercam a ideia de cuidado, vínculo e instinto. Há algo muito bonito na forma como o universo equestre se liga à cura e à memória: um animal enorme, forte, impossível de controlar pela força bruta, exigindo presença, respeito e afeto. Uma bela lição, sem pose de palestra motivacional.
Há sensualidade explícita em alguns momentos, coerente com o tom de paixão sem freio que a autora escolhe. Não é um romance para quem espera castidade literária, mas também não reduz seus personagens ao desejo. O corpo aparece como parte da vida emocional: ora celebração, ora impulso, ora confusão - porque gente de verdade raramente cabe numa caixinha limpa e bem etiquetada.
No fundo, Folhas de Bordo fala do que sobra quando a vida derruba nossas certezas mais queridas. E não, não oferece uma fórmula milagrosa, dessas que cabem em legenda de rede social. Oferece uma imagem mais honesta: a de alguém diante de uma árvore, percebendo que florescer não é esquecer o inverno. É atravessá-lo sem arrancar de si aquilo que ainda pode criar vida.
Quando o mundo parece uma máquina barulhenta de perdas, pressa e ruído, o romance de Marília Mangueira insiste numa ideia simples e perigosamente humana: ainda há raízes. E talvez seja justamente isso que você precise lembrar.
📖 Folhas de bordo
✍ by Marília Mangueira
🧾 139 páginas
2026
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